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  • Fernanda Damy Haybittle

"Força, guerreira": o incentivo que nos aprisiona.




Poucas coisas me incomodam tanto quanto essa fala, irmã de muitas outras: guerreira, mulher maravilha, centro da família, matriarca…


São todas formas de exaltar o nosso acúmulo de funções e responsabilidades como se isso fosse uma coisa positiva. Não é.

A manipulação por trás dos já batidos "ah, mas você sabe cuidar de tudo tão bem", ou "o que seria de nós sem você" fica clara quando olhamos um pouquinho mais a fundo a realidade das mulheres que de fato tem muita gente sob sua responsabilidade.


Famílias compostas por adultos que não sabem e não querem cuidar das próprias vidas, incapazes de tomar decisões simples da rotina e recorrendo à mãe para tudo leva essa mulher a acreditar que de fato ela não pode PISCAR sem que algum problema caia em seu colo e ela precise resolver.


Além daqueles que moram juntos, existem ramificações da família que reconhecem nessa mulher a "força" da atitude e delegam a elas também suas questões. Não incomum, elas ainda precisam cuidar dos pais idosos, de sobrinhos desencaminhados, de irmãs que não saem do lugar pois vivem no vitimismo constante achando que a vida lhes deve alguma coisa, sem de fato olhar para si e ver que o desenrolar de nossas vidas depende essencialmente de nós mesmos.


Trabalham nas entrelinhas, apelando para sentimentos como culpa social e necessidade de aprovação, sabendo exatamente quais botões apertar para que esta mulher siga servindo-os, sem questionar.

Nos últimos dias ando bem introspectiva e pensando nos papéis que desempenhamos na vida e vejo que, não raro, nos envaidecemos deste papel de referência e metemos os pés pelas mãos. Eu já estive neste lugar e conheço muitas outras que estiveram também.

Quando vemos, estamos vivendo para e pelo outro, exaustas, sem voz e subservientes.


Libertem-se.

Mesmo que isso lhes custe relacionamentos próximos, julgamentos do que não mais se beneficiarão, papéis que não são seus.

Muitas vezes precisamos de ajuda externa para ver a realidade dolorosa de quem foi explorado. Essa ajuda pode vir de uma amiga, um terapeuta, uma doença.


Às vezes um burnout é nosso passaporte para sair desse lugar e estabelecer nova morada, mais saudável, justa e madura para todos os envolvidos.

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